O presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), Sérgio Murillo de Andrade, confirmou ao “O Jornalista” que, em outubro do ano passado, entregou pessoalmente ao então ministro da Educação, Tarso Genro, um ofício com um pedido de moratória na abertura de novos cursos de Jornalismo e participação da FENAJ no processo de credenciamento e avaliação. “Apesar de sucessivas cobranças, até hoje o MEC não respondeu oficialmente”, lamenta o presidente da FENAJ.
Veja abaixo a entrevista com o presidente da FENAJ:
“O Jornalista” - O Brasil tem mais de 300 cursos de Jornalismo e 188 de Odontologia. Isto não é um sintoma de que a política educacional brasileira precisa, no mínimo, de uma restauração?
Sérgio Murillo- Precisa de uma grande reforma que envolva e dê unidade a todas as etapas no processo de educação. Da pré-escola até a pós-graduação. Uma educação vinculada à luta pela emancipação do nosso povo, envolvendo a produção do conhecimento, ciência, tecnologia, cultura e valores humanísticos como forma de superação da dependência e constituição de uma nação justa e soberana. Parece discurso. Mas o outro caminho é a barbárie.
“O Jornalista” - De que forma esta grande quantidade de cursos prejudica a profissão e o País?
S.M. - Da mesma forma que as centenas de cursos de Direito sem qualidade prejudicam a profissão dos advogados. Acho que há um enorme prejuízo coorporativo, mas a maior prejudicada é a sociedade que necessita de profissionais qualificados, com competência técnica, visão crítica da realidade e princípios éticos.
“O Jornalista” - O Ministério da Educação não dá ouvidos para a Federação?
S.M. - É inegável que há uma melhor condição para a interlocução com a sociedade e entidades representativas da sociedade. Mas o resultado é decepcionante, em diversas áreas. Na comunicação, por exemplo, a relutância do atual governo em constituir e pôr em prática um projeto nacional, deixando permanecer nas mãos dos empresários nacionais de mídia e de seus sócios estrangeiros o poder de decisão sobre a estrutura e a regulamentação dos sistemas de mídia, fragiliza ainda mais as chances de uma reação ao atual quadro. Mesmo as condições para instituir espaços de diálogo com a sociedade civil em torno de temas como radiodifusão comunitária e digitalização das comunicações, estabelecidas nos primeiros meses de governo, foram condenadas ao limbo. As instâncias criadas, seja via grupos de trabalho ou conselhos consultivos, foram tratadas com descaso. No caso das rádios comunitárias, nenhuma das sugestões de alteração do procedimento de análise para aceleração na tramitação de pedidos de emissoras foi posta em prática. Na TV Digital, a instância de representação da sociedade até hoje sequer possui uma estrutura mínima para o registro das atas das reuniões.
“O Jornalista” - O que a entidade pretende fazer para conseguir uma moratória nas autorizações de novos cursos?
S.M. - No seminário sobre reforma universitária, promovido pela FENAJ, FNPJ e SBPJor, em agosto, em Brasília, o secretário executivo do MEC, Jairo Jorge, sinalizou com um evento em outubro que irá discutir e formular uma proposta
para assegurar a participação de entidades profissionais no processo de autorização. A FENAJ pretende participar e apresentar projetos.
“O Jornalista” - A FENAJ defende o fechamento de alguns cursos?
S. M. - A FENAJ defende o ensino com qualidade. Entendemos que é um direito dos estudantes e uma defesa da sociedade. Nosso programa de estímulo à qualidade do ensino prevê a formação de comissões de gestão dos cursos com a participação de representação da sociedade. Os cursos que não apresentarem condições mínimas de ensino devem ser advertidos e, na reincidência, fechados pelo Estado.
“O Jornalista” - Como os jornalistas podem colaborar para frear esta festa?
S.M. - Participando ativamente das ações e apoiando os posicionamentos dos Sindicatos e da Federação. Infelizmente ainda não constituímos um Conselho Federal, órgão institucionalmente adequado para intervir nessa área.
“O Jornalista” - Como fica o estudante que paga caro por um curso que não tem qualidade?
S.M. - Lesado. Não só pelo prisma dos direitos do consumidor, mas, especialmente, na violação da cidadania e agressão a um direito humano.