Por Marina Penderis
Helsinque, 09/09/2005 – O mundo necessita de meios alternativos de comunicação, os quais, por sua vez, necessitam de credibilidade, segundo especialistas que participaram das primeiras sessões da Conferencia de Helsinque, fórum que propões mecanismos para uma globalização inclusiva e eqüitativa. “Mobilizando a vontade política” é o slogan da presente edição da Conferência, que de quarta-feira até hoje, reúne mais de 600 representantes de organizações não-governamentais de 70 países e que é organizado pelo governo finlandês em cooperação com a Tanzânia. A expressão “meios alternativos” se refere à maioria dos bloggers (indivíduos ou pequenas organizações que publicam seus pontos de vista na Internet) e de aventureiros munidos de filmadoras digitais, reconhecidos como uma força em crescimento, afirmaram os especialistas. E, como afirmou Anuradha Mittal, diretora-executiva do Instituto Oackland dos Estados Unidos, em um debate organizado pela IPS, seu público pode estar aumentando em muitos lugares do mundo.
O debate sobre comunicações, meios e cidadania reuniu tanto blogueiros e realizadores de filmes digitais, quanto jornalistas de instituições tão tradicionais como a British Broadcasting Corporation (BBC, de Londres). Em geral, acredita-se que os gostos dos que comandam os meios alternativos não coincidem com os da BBC. De todo modo, em certas ocasiões mostram seu poder. Isso ocorreu, por exemplo, quando ativistas registraram com suas câmeras digitais a brutalidade da polícia nas manifestações que cercaram, em 2001, a reunião de cúpula do Grupo dos Oito em Gênova, Itália. O poder de convocação dos novos meios também ficou comprovado com os protestos coordenados a partir de sites na Internet e por telefone celular a propósito da convenção do Partido Republicano dos Estados Unidos que no ano passado disputou a reeleição do presidente George W. Bush, disse Mittal.
“Um ditado africano diz que, até que os leões possam contar suas próprias histórias, as histórias de caça sempre irão glorificar o caçador”, disse a ativista. Mas admitiu que ainda existe “uma necessidade real de bom jornalismo” neste mundo desafiador dos novos meios. Nick Fraser, da BBC, disse que os meios alternativos não são uma solução. “Nos anos 70, acreditava-se na possibilidade de criar um contrapeso à dominação dos meios do Norte” industrial, afirmou. “Creio que a vida é muito curta para isso. Em seu lugar, deveríamos nos centrar em encontrar programas que possam ser vistos em todo o mundo”, acrescentou Fraser, hoje encarregado da realização de 10 filmes sobre a democracia de vários países. A Internet pode oferecer um grande volume de informação, mas boa parte dela necessita de credibilidade, segundo Fraser. “Em nossa era da informação, uma quantidade de meios falham no nível básico. Necessitamos de meios confiáveis”, disse.
Porém, não há unanimidade de que a confiabilidade da informação proceda de instituições como a BBC, ou de que somente tais meios podem dar uma voz de credibilidade a quem não tem voz. A rede de televisão al Jazeera, emissora independente, embora pertencente ao governo do Qatar, começou sendo a alternativa, fornecendo um ponto de vista árabe sobre as notícias internacionais. Hoje, esta televisão via satélite está entre os meios de informação mais influentes do mundo. “Não se pode fazer nenhuma crônica sobre Oriente Médio sem uma referência à Al Jazeera”, disse Alejandro Kirk, da IPS. “Eles têm prioridades. E quando se tem uma prioridade, se tem visibilidade e credibilidade”, ressaltou. Participantes de meios alternativos reconheceram que o mais difícil é conquistar o público.
O cineasta Maeem Mohaiemen, cujo documentário “Disappeared in America” (Desaparecido nos Estados Unidos) trata da detenção de imigrantes muçulmanos depois de 11 de setembro de 2001, disse que não está satisfeito com a audiência que conseguiu em festivais de cinema ou através de canais locais de televisão. Ele organizou um mostra de fotografias sobre o tema do filme no Museu de Arte do Queens, em Nova York. “Alguns não gostaram, mas muitos se detiveram, e isso era o que queríamos”, afirmou. Entretanto, o número de espectadores continuou pequeno.
O realizador independente André Vltchek narrou dificuldades semelhantes em busca de público para um documentário que fez, uma crítica da política dos Estados Unidos em relação à Indonésia. “O filme abriu o Festival de Cinema Independente de Nova York em 2004. A resposta da crítica foi extremamente positiva, mas não fomos capazes de convencer emissoras de televisão a apresentarem o filme. É difícil quando se critica a política externa dos Estados Unidos”, afirmou. Fraser, por sua vez, disse que isso pode não ser necessariamente um problema. “Creio que hoje seria mais difícil produzir um filme com o título “Eu amo George W. Bush”, afirmou. (IPS/Envolverde)
Extraído da Revista Envolverde - Crédito: "Communication" -IsabelleCardinal (Envolverde/ IPS)