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11/10/2005
Silêncio dos intelectuais
 

*Lúcio Flávio Pinto

 

Quando algum de seus teólogos se torna rebelde, a Igreja lhe impõe um silêncio obsequioso. O punido se submete à censura ou se insubordina. Se continua a professar e expressar suas idéias heterodoxas, pode acabar recebendo punição mais drástica.

Os intelectuais de esquerda vivem neste momento a sua fase de silêncio obsequioso. A causa é a crise moral e ética do PT, cuja bandeira partidária uma legião de intelectuais fez sua, a ferramenta para a aplicação na prática de suas idéias, o veículo de suas esperanças e utopias. Vozes que a sociedade se acostumou a ouvir, expressando idéias e interpretando a história, agora estão caladas, escondidas em algum escaninho profissional, acadêmico ou doméstico.

O silêncio atual dói. Na verdade, porém, já há algum tempo os intelectuais se têm afastado da cena pública. Aqui, como na maioria dos lugares, pode-se delimitar um marco desse distanciamento. Se se quiser uma data, pode-se pegar 1958. Foi nesse ano que se organizou a Universidade Federal do Pará, a partir de cursos superiores isolados, como os de Direito, Engenharia e Medicina, os mais concorridos e famosos.

Criar a UFPA, evidentemente, foi um avanço e uma conquista. A universidade constitui-se em centro organizado do saber, sistematizando a produção do conhecimento e instalando sensores de captação da contribuição universal. No entanto, o fascínio da carreira acadêmica foi tirando os intelectuais mais orgânicos das ruas, das praças, dos bares, dos locais de concentração do homem do povo, incluindo no meio dele os intelectuais ditos não-orgânicos, os livre-atiradores, os iconoclastas, sem a régua & o esquadro dos métodos e metodologias científicos.

Atraídos pelos títulos, honrarias e status, os intelectuais universitários, que constituem o maior investimento público em conhecimento, foram se despojando de sua função pública, do seu papel como caixas de ressonância e pregoeiros das novidades. Passaram a tratar exclusivamente de suas carreiras acadêmicas e dos interesses por elas satelitizados. O homem público entrou em desuso, tornou-se decadente, virou démodé.

A crise seminal do PT evidenciou essa praga do silêncio, que se inocula como vírus, contra o qual os antídotos disponíveis são pouco eficientes. O intelectual, como amostra grátis e multiplicador social, expressa esse voltar-se para dentro de si de gerações de minimialistas, egocêntricos, narcisistas, individualistas, pedantes, soi-disant superiores à massa, que dela precisam se distinguir a todos os títulos e custos. Mesmo que com a expressão de biscuits no hall da ociosidade.

Atentado

O caso do PT é um dos canais de vazamento desse miasma. Mas pode-se tomar como outro exemplo, embora microscópico, este jornal. Nos nove meses que se seguiram à agressão cometida por Ronaldo Maiorana, as mensagens enviadas mostram que o cidadão comum, entendendo o significado desse atentado, tem manifestado sua solidariedade e tentado animar a vida deste jornal. Os grandes intelectuais, aqueles que com sua história se tornaram um referencial na terra, estes se calaram. A adesão a um projeto alternativo, exercido na premissa de que a missão da imprensa é fiscalizar o poder, inclusive o da própria imprensa, é um perigo para suas carreiras. Por isso, melhor não colocar suas rútilas cabeças em perigo.

Excluídas as primas donas, resta a nossa confraria, a dos “homens sem qualidades”, como o do romance de Robert Musil. E que, justamente por não disporem dessas “qualidades”, precisam ser mais e fazer mais para marcar presença na arena que realmente os sublima e projeta: aquela onde se decide o verdadeiro interesse público contra os interesses parciais e particulares. Ausentar-se dessa arena significa concordar que prevaleça o interesse individual sobre o bem coletivo.

Por isso mesmo ficamos isolados, somos perseguidos. Por isso mesmo somos perigosos, daquele perigo que levou Bertolt Brecht a advertir seus compatriotas alemães militaristas sobre a eficiência do avião e do canhão, que não são eficientes sozinhos, mas em função de quem os opera. O problema é que essas pessoas pensam. E tentam colocar em prática o que pensam.
 
*Artigo publicado originalmente no Jornal Pessoal editado pelo jornalista e sociólogo paraense Lúcio Flávio Pinto, um dos mais prestigiados jornalistas em atividade na Amazônia brasileira. Lúcio, que tem vários livros publicados, foi professor visitante na Universidade da Flórida, em Gainesville, Estados Unidos, e na Universidade Federal do Pará. Trabalhou em alguns dos principais órgãos da imprensa brasileira, como as revistas Veja e Istoé e o jornal O Estado de S. Paulo. Recebeu quatro prêmios Esso, dois prêmios FENAJ e o Colombe d’Oro per la Pace, um dos mais importantes conferidos na Itália a jornalistas. Lúcio Flávio Pinto perde dinheiro, ganha inimigos e coleciona ameaças ao tratar dos assuntos da Amazônia e da Região Norte do Brasil.

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