Inaceitável! A Rede Gazeta confirma que o governo do Estado do Espírito Santo
grampeou jornalistas da Rádio CBN, jornal A Gazeta e TV Gazeta, com aval da
Justiça. Segundo o site Gazeta Online, da Rede Gazeta do Espírito Santo, o sistema
de monitoramento telefônico do Governo do Estado, conhecido como Guardião, foi
mesmo utilizado de forma ilegal para monitorar conversas telefônicas de
jornalistas e funcionários da Rede Gazeta, no mês de abril deste ano. O site
informa que "as interceptações foram autorizadas pelo juiz da 4ª Vara Criminal
de Vila Velha e prorrogadas com aval do desembargador Pedro Valls Feu Rosa. Elas
seriam utilizadas no processo de investigação do assassinato do juiz Alexandre
Martins. No entanto, a autorização contraria a Lei de Imprensa - que garante ao
jornalista manter a fonte em sigilo - e, por isso, mesmo com autorização da
Justiça, torna-se ilegal".
Na matéria veiculada hoje (10/12), a Rede Gazeta revela que obteve documentos
que mostram um relatório do Núcleo de Repressões às Organizações Criminosas,
assinado no dia 23 março deste ano, pela delegada Fabiana Maioral e também pelos
promotores Ivan Soares de Oliveira Filho e Marcelo Zenkner, com o pedido de
autorização das escutas telefônicas. No relatório, o número central da Rede
Gazeta - que foi grampeado - aparece como sendo de uma empresa de fachada
utilizada pelo traficante Fernando de Oliveira Reis, o Fernando Cabeção, já
condenado pela justiça por ter intermediado a morte do juiz Alexandre.
Apesar de constar no relatório como sendo um telefone da empresa de fachada
conhecida como Telhauto, o número telefônico é de propriedade da Rede Gazeta e
da central de celular para as ligações recebidas e feitas pela Rede. Desta
forma, fica evidente que todos os telefonemas recebidos e feitos por jornalistas
das redações da Rádio CBN, jornal A Gazeta e TV Gazeta, além dos demais
profissionais de outros departamentos, foram grampeados pelo Guardião.
Diante dos fatos citados, a interceptação telefônica estava sendo feita, para
efeitos legais, na empresa Telhauto, quando na verdade os grampeados eram os
jornalistas e funcionários da Rede Gazeta. Fato curioso é que, após as escutas,
a justiça novamente autorizou a continuação das interceptações, sem sequer,
identificar que as conversas não eram da empresa fachada, mas sim de jornalistas
da Rádio CBN, jornal A Gazeta e TV Gazeta.
Em função
desta violação, a Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ) e o Sindijornalistas
do Espírito Santo emitiram nota de repúdio, condenando com
veemência as escutas telefônicas. Por isso, a Fenaj decidiu encaminhar a
denúncia, os documentos e os CDs com as escutas telefônicas ao Ministro da
Justiça, Márcio Thomaz Bastos e às demais autoridades de direitos humanos do
Brasil e do Mundo. "Eu acho isso um fato muito grave. O que aconteceu no
Espírito Santo deve ser repudiado pela sociedade brasileira pelo crime de
violação da liberdade de imprensa e sigilo das fontes", disse o presidente da
Fenaj, Sérgio Murillo de Andrade, acrescentando que não tem conhecimento de fato
semelhante em nenhum Estado brasileiro.
O presidente do Conselho Administrativo da Rede Gazeta, Carlos Fernando
Lindemberg Filho, condenou com veemência os grampos feitos em jornalistas e
funcionários da Rede. "Em 43 anos de trabalho com jornalistas, eu nunca vi coisa
igual. Precisamos saber que trama foi essa. Acho que é um momento da Fenaj,
sindicato e imprensa exigir uma investigação. Nós precisamos proteger as nossas
fontes e os nossos jornalistas, física e juridicamente. É muito lamentável esse
fato", destacou Cariê.
Por sua vez, o Secretário Estadual de Segurança Pública, Rodney Rocha
Miranda, disse que houve um erro no pedido de escuta, uma vez que a solicitação
foi referente a um possível telefone pertencente à empresa Telhauto, quando na
verdade o telefone pertence à Rede Gazeta. "Esse fato nos preocupa muito. Eu vou
mandar investigar isso com profundidade. Primeiro com os delegados que pediram a
quebra do sigilo - Danilo Baihense e Cláudio Vitor - , afinal, quando eles
constataram que o telefone não era da Telhauto, mas sim da Rede Gazeta, isso
deveria ter sido imediatamente comunicado à Secretaria de Segurança", disse
Rodney.
O secretário ainda informou que no dia 28 de março, cinco dias após a emissão
do relatório da Polícia Civil, que pede a quebra dos sigilos telefônicos,
encaminhou o documento ao Tribunal de Justiça para as providências do caso. E
que a partir daí todas as providências foram tomadas pelos delegados Cláudio
Vitor e Danilo Bahiense, que foram solicitados para trabalhar nas investigações
da morte do juiz Alexandre Martins pelo desembargador Pedro Valls Feu Rosa. Para
Rodney, essa foi uma tentativa do crime organizado desestabilizar toda apuração
séria que foi feita no caso Alexandre Martins.
O desembargador e relator do processo na Justiça, Pedro Valls Feu Rosa,
informou, por nota, que foi induzido ao erro, porque autorizou a interceptação
telefônica acreditando que se tratava da empresa Telhauto. Disse ainda que
repudia toda e qualquer prática que venha coibir o exercício do jornalismo, que
segundo ele, é essencial para a própria raça humana.
Em nota, a Rede Gazeta demonstra sua indignação e pede apuração e
punição a todos os envolvidos na escuta ilegal. Confira a íntegra
nota:
"Indignação é pouco para definir o sentimento da Rede Gazeta diante da
gravíssima revelação de que a empresa foi alvo de um grampo telefônico. Mais que
indignados, os profissionais da Rede estão assustados com a facilidade com que
pedidos de escutas telefônicas são feitos e aceitos pelas autoridades. Não se
discute a necessidade da existência de ferramentas para o combate à
criminalidade. Mas não é admissível que essas ferramentas sejam usadas de
maneira leviana. Não é possível admitir que quebras de sigilo telefônicos sejam
feitas sem nenhuma checagem, uma tarefa que levaria apenas alguns segundos. Não
foi apenas a Rede Gazeta a atingida neste episódio. Foi uma instituição
democrática. A preservação da liberdade de imprensa e do sigilo da fonte é
preceito da democracia. É por isso que as autoridades precisam responder
imediatamente às inúmeras perguntas surgidas a partir desse episódio. É preciso
saber em que condições o grampo foi autorizado, o que foi gravado, quem teve
acesso às gravações, por que é tão grande a fragilidade na autorização dos
grampos. É preciso, enfim, esclarecer o caso em sua totalidade. Não apenas
porque os jornalistas tiveram seu sigilo quebrado, mas também porque ficaram
expostos todos os telespectadores, ouvintes, leitores e fontes de informação que
entraram em contato e depositaram sua confiança na Rede. O pior é constatar que
essa exposição, essa quebra da privacidade foi amparada e sustentada por órgãos
oficiais. É duro e triste. A Rede Gazeta quer a apuração de todos os fatos. E
vai tomar todas as providências, inclusive judiciais, para reparar o tratamento
indigno de que foi alvo".
O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no Espírito Santo (OAB/ES),
Agesandro da Costa Pereira, afirmou neste sábado que se reunirá com o Sindicato
dos Jornalistas do Estado e com os profissionais da área da Rede Gazeta para
discutir a quebra do sigilo telefônico. O presidente considera um atentado o que
ocorreu, mas somente irá se pronunciar após esta segunda-feira, quando terá
conhecimento detalhado sobre a escuta telefônica.
"Tenho apenas uma notícia vaga de que esse atentado ocorrreu. As providências
dependerão da apuração dos fatos que ainda não estão muito claros", disse.
O delegado Danilo Bahiense informou que não teve conhecimento do grampo na
Rede Gazeta e disse que o desembargador Pedro Valls Feu Rosa é quem tem que
falar sobre o caso.
Fonte: Gazeta
Online