Depois de passar uma temporada na prisão, o ex-governador Paulo Maluf terá pela frente um novo problema. Dois jornalistas decidiram cobrar do ex-governador a promessa de que ele doaria todo o dinheiro dele que fosse encontrado em contas secretas suíças. Dos dois jornalistas, um é suiço e trabalha na Tribuna de Genebra, o outro é o brasileiro Rui Martins. "O Jornalista" conversou com Martins, na Suíça, sobre a cobrança da promessa e outros assuntos. Leia abaixo a entrevista.
Promessa é dívida
Rui Martins revelou para "O Jornalista" que fará a cobrança da promessa de Maluf no próximo encontro com a imprensa internacional no Clube Suíço da Imprensa, que reúne os correspondentes estrangeiros na ONU, em Genebra.
Rui Martins é um ilustre desconhecido para a nova geração, que poderá conhecer um pouco do trabalho do jornalista lendo o livro "Dinheiro sujo da corrupção - por que a Suíça entregou Maluf", recém-lançado. Muitos se lembram dele, pelos boletins da Rádio CBN, da qual foi um dos fundadores e correspondente europeu. Vivendo em Paris e depois na Suíça, escreveu para "tudo quanto é jornal e revista brasileiros", como costuma dizer. Martins deixou o Brasil em 1969, fugindo da ditadura militar e não achou mais o caminho da volta.
Me dá meu dinheiro aí!
Perguntado sobre que história é esta de reivindicar o dinheiro do Maluf, ele responde: "Simples; o Maluf negava ter dinheiro em contas secretas suíças e dizia "darei tudo se acharem". Ora, eu e o meu colega suíço da Tribuna de Genebra achamos, e isso em 2001. E como temos um encontro com a imprensa internacional, no Clube Suíço da Imprensa, decidimos cobrar a promessa do Maluf, fazer um proposta contra o segredo bancário (desconto direto na fonte dos lucros obtidos pelas contas secretas, como já se faz com os países europeus). E denunciar a BBC por dumping".
Sobrou para a BBC
OJ- Qual a sua queixa da BBC?
RM- Que a BBC entregue seu material para rádios do sertão ou da selva africana, vá lá. Mas que dê tudo de graça, de mão beijada para rádios comerciais como a CBN ou para o site da Folha Online, isso não tem explicação. A OMC (Organização Mundial do Comércio) condena o fornecimento de produtos ou serviços abaixo do preço de custo, como aconteceu com o algodão americano. Ora, a BBC dá de graça seu material e arrebenta com a possibilidade de jovens jornalistas terem uma chance de serem correspondentes internacionais. Se a BBC faz isso e a RFI também, só que em menor escala, não é por amor dos nossos filhinhos. Deve ter um interesse, uma espécie de neocolonialismo da informação. Vamos tirar isso a limpo? Mesmo porque, esta prática unifica nossas fontes de informações. Mas é claro, todo mundo vai vir de porrete em cima de mim, porque as rádios que usam o material da BBC e os sites Web com sua janelinha não vão gostar. Porém, vamos ter um pouco de respeito aos profisionais e dignidade - não somos um país miserável, morto de fome, que precise informação de graça. Vamos exigir nossa informação sem passar por Londres ou Paris.
OJ- Qual deve ser, na sua opinião, a atitude da FENAJ e dos Sindicatos de Jornalistas brasileiros frente ao problema?
RM- Promover um debate na classe, tirar a média, sem escutar os patrões da informação. E, sem dúvida, todo mundo vai condenar essa nossa dependência, que poderá tambem servir de exemplo para outros países. Informação de graça, só para rádios comunitárias ou sem recursos. Rádios comerciais, sites comerciais, terão de pagar para ter informação, contratar jornalistas e ter correspondentes. Vamos criar empregos para nossos jornalistas e acabar com o rebroadcasting de programas gravados em Londres ou Paris. É, vão dizer: mas os jornalistas da BBC são brasileiros. E daí, quem fixa linha das transmissões? O Foreign Office ou o Quai d´Orsay. Eu prefiro que seja meu editor tupiniquim.