"O governo Lula foi burro na política econômica. Não foi capaz de mudar o País como prometeu e enterrou o discurso da mudança", a afirmação é do jornalista Bernardo Kucinski, assessor da Presidência. Desde 1998, ele dedica-se a fornecer a Lula uma análise crítica sobre a relação do presidente com a mídia: "Ninguém tem coragem para dizer a verdade para o presidente claramente e eu digo todos os dias de manhã", disse ele para Alice Sosnowski, em entrevista exclusiva para a Agência Repórter Social.
Na entrevista, Kucinski detonou: "Lula eliminou a necessidade da imprensa" e confirmou o que muitos já desconficavam: "não há o menor planejamento na comunicação governamental".
Kucinski tem acesso direto ao presidente, que diariamente faz a ele a leitura de suas "cartas críticas", analisando a cobertura da imprensa e sugerindo ações. "Ninguém tem coragem para dizer a verdade para o presidente claramente e eu digo todos os dias de manhã", afirmou na entrevista.
Na entrevista, Bernardo Kucinski, professor licenciado da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), não ataca apenas o governo, mas a imprensa. Identifica um "macarthismo", uma "cruzada moral" na cobertura da crise, diz que os repórteres são despreparados e os colunistas só têm espaço na mídia porque dizem o que o poder quer.
A seguir, os principais trechos da entrevista dada com exclusividade à Agência Repórter Social.
Relação de Lula com a Imprensa
"Sempre foi muito ruim. Ele sempre foi muito maltratado pela imprensa, tirando alguns períodos - como em certo momento da greve de 1978. Fora alguns períodos, ele sempre foi muito desrespeitado. Os jornalistas não aceitam um líder político que não tenha diploma."
Coletivas
"O erro que o Lula cometeu foi quando ele virou presidente. Ele não soube dissociar sua pessoa, o político que vem sendo perseguido faz anos, da figura do presidente. O presidente tem por obrigação receber a imprensa. Não importa o que ela vai fazer depois. É uma obrigação institucional. Lula eliminou a necessidade da imprensa. Passou a se comunicar diretamente, através das falas, do café, dos discursos. Ele fala e não se submete ao questionamento. O governo até poderia ter feito isso se, ao mesmo tempo, estabelecesse um rito de coletiva, como todos os governos de países importantes fazem. Uma vez, duas vezes por semana ou todos os dias. Sempre no mesmo lugar, com o escudo do Brasil atrás".
O PT e a Comunicação
"A falha é do grupo que chegou ao poder. O PT tem uma tradição curiosa nessa análise. Ele tem propostas de políticas públicas para várias áreas: saúde, educação, agricultura, mas para comunicação não tem. As que ele tem, que os grupos de ativistas chegaram a fazer, nunca foram incorporadas pelo partido. Não há o menor planejamento".
Duda Mendonça
"A presença do Duda Mendonça foi perturbadora. Ele passou a circular no governo de maneira informal. Não era ministro de nada, era contratado pelo governo para fazer ações de comunicação. Na minha opinião, ele não podia ao mesmo tempo ser palpiteiro do governo e quem ia fazer as ações. Nem as empresas privadas fazem isso. Você apresenta sua demanda, a empresa de comunicação apresenta a proposta e você aprova ou rejeita. Ali não. O Duda ficava dos dois lados do balcão".
Luiz Gushiken
"Ele não era do ramo. A experiência dele é de campanha, não de comunicação do governo. Talvez por esse motivo e também por outros, ele foi tocando muito na chamada comunicação programada, em que você paga para comunicar, que são ações de propaganda. Agora, comunicação de governo não se restringe a isso. (...) Daqui a alguns anos os repórteres vão perceber que a tal empresa do Gushiken não teve sacanagem e afundou por causa dessa campanha (de difamação)".
Vazamentos
"O padrão de comunicação do governo Lula é por um lado a fala vertical do presidente e por outro os vazamentos, que se tornaram padrão de comunicação. Vazamento de assessores muito próximos. Os vazamentos desmoralizam o governo, desmoralizam os comunicadores, insuflam a luta interna. Passa-se a fazer uma luta interna através da mídia. Usa-se a mídia para disputa interna. Os vazamentos ou conversas reservadas com jornalistas têm um papel importante, mas acessório. É legitimo chamar um grupo de jornalistas, tentar contextualizar uma situação, baseado no off. Mas os vazamentos viraram uma distorção."
Repórteres em Brasília
"Está faltando tudo. Falta conhecer história, e falta a preocupação em conhecer. Falta operosidade. Eles não trabalham a sério as questões, não vão a fundo. Estou falando do jornalista, do repórter. Você tem aí uma grife, os colunistas. Estes têm conhecimento, bons contatos, cultura, bagagem. O problema é outro".
Colunistas
"Eles têm um espaço privilegiado na imprensa porque defendem certas posições. Todos defendem a política econômica do Palocci, do Banco Central, Corte de gasto público, o Estado mínimo. Por isso eles são premiados com espaços nobres. Há um processo de seleção. E eles estão em todos os lugares, jornal, rádio, TV, porque estão falando aquilo que o poder quer que ele fale. Você tem exceções, mas elas são contadas nos dedos de uma mão, como o Luiz Nassif. Em geral, eles são tolerados porque legitimam o jornal. Os dissidentes, os mais críticos têm um espaço mais acessório, ocasional, calculado para que ele não influa no tom geral do discurso da mídia".
Corrupção
"O problema dos repórteres é que eles estão vivendo um momento muito difícil. De extrema competição, uma carga de trabalho que não deixa espaço para um trabalho aprofundado. E, nesse ambiente, criou-se uma postura igual, pois assim todos correm menos risco. Todos acham que todo o governo Lula é corrupto, tudo que todos os ministros fazem é suspeito e, qualquer coisa que se faça, alguma coisa tem por trás daquilo. Como o trabalho é uma pauleira, não dá tempo de investigar direito. Aos poucos as acusações viraram matéria, as pautas viraram matérias. Matérias inteiras que deveriam ser o ponto de partida e são o ponto de chegada".
Macarthismo da Imprensa
"O linchamento da imprensa ocorreu porque o governo Lula decepcionou. Quando estouraram as acusações do Roberto Jefferson, que surgiu o cânone dessa lambança toda, aí a decepção foi total e não houve como esconder. E aí todo mundo acha que tem que fazer uma acusação, fazer parte de um processo histórico, como se a nossa geração estivesse derrubando um governo corrupto. Todo jornalista se sente na obrigação de contribuir com isso. Eles acreditam que estão fazendo o bem. Não percebem que todos que estão acusando o PT sempre foram corruptos. Eles estão discriminando. Acusam o PT e não os outros. A história do Azeredo, das privatizações, aparece muito minimizada, para legitimar a campanha contra o governo Lula. É um fenômeno interessante, parecido com o macarthismo, que aconteceu nos EUA".
Governo Lula
"Fundamentalmente, o nosso governo não foi capaz de mudar o país como ele prometeu. Mudar para sentir que estamos caminhando para alguma coisa. Você não muda de um dia para o outro, mas você cria o sentimento da mudança, e esse sentimento não foi criado. Nós enterramos o nosso próprio discurso da mudança".
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