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18/04/2006
Jornalismo entre o público e o privado
 

Eduardo Lorea (*)

A ciência moderna recomenda a clara definição de seus objetos de estudo, o que acarreta um problema para a academia de jornalismo: o discurso e a prática da mídia grande não combinam entre si e, por isso, é difícil dos parâmetros do seu dever-ser. Afinal, a imprensa presta um serviço público ou não passa de um negócio? Ela se destina ao cidadão ou ao consumidor? Quer antes informar ou lucrar?

Para Juremir Machado da Silva não há dúvida alguma. "Informar traduz apenas a fachada da midiocracia. A maioria das novidades veiculadas está no grau zero de informação. A mídia vende o que o cliente deseja e cada vez mais se afasta de preocupações formadoras", escreve o jornalista, no livro A miséria do jornalismo brasileiro: as (in)certezas da mídia (Petrópolis: Vozes, 2000). Mais longe ainda vai Ignácio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique. Em conferência no Fórum Social Mundial de 2002, ele afirmou que "as empresas de comunicação não vendem informação aos cidadãos, mas cidadãos aos anunciantes".

Se os donos da mídia, frente às questões do primeiro parágrafo, se declararem produtores de mercadorias destinadas ao consumidor e com fim meramente lucrativo, e assim nós os aceitarmos, não cabe a ninguém imputar-lhes outro julgamento que não o baseado na ética do mercado. Se eles produzem jornais como os padeiros produzem pão, nossa relação com os veículos de informação não ultrapassa a de compra e venda, e não podemos exigir o fim do mau jornalismo. No máximo, faculta-nos deixar de comprá-lo.

Instrumento de cidadania

Se "a ignorância é uma opção que deve ser respeitada", conforme defende o empresário da educação João Uchôa, dono da Universidade Estácio de Sá, assim também o é também o sensacionalismo. Os jornais não têm certificado de garantia ou compromisso com a satisfação do cliente e, assim, é injustificável que nós, clientes, exijamos algo dos industriais da informação. Resta-nos a liberdade de escolha para decidir entre sovadinhos e franceses.

Desse ponto de vista, o do jornalismo-negócio, Silva e Ramonet fazem simples constatações. Um define a atividade da imprensa; o outro lembra o fato de as empresas jornalísticas reunirem dois tipos de cliente - os leitores (ou ouvintes e telespectadores) e os anunciantes. Por outro lado, eles se tornam ácidos críticos se as famílias Marinho, Abravanel, Saad e companhia insistirem em invocar para suas organizações a condição de servidoras públicas, incumbidas da nobre missão de informar o cidadão. Um denuncia a incompetência dos clãs no desempenho de seus ofícios; o outro os acusa de exercer um comércio estranho a seus fins declarados.

Nesse caso, esqueçamos a analogia com o mercado confeiteiro. Servidores públicos são responsáveis por oferecer ao cidadão aquilo de que ele necessita para o melhor exercício de sua condição de partícipe da sociedade democrática. A informação sensacionalista, aquela que explora o conflito e interpela a emoção do leitor - segundo os ensinamentos de Roberto Ramos, professor da PUC-RS -, deve dar adeus ao aconchego dos jornais e ir se hospedar em outras páginas. Guarde-se um cantinho para o entretenimento, o supérfluo, a fofoca. Amplie-se a investigação, o aprofundamento de temas, a informação instrumento de cidadania.

(*) Editor de Política do Fazendo Media

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