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24/07/2006
Os jornalistas e os interesses das empresas de comunicação
 

*por Guto Camargo

“Posso contratar metade da classe trabalhadora para matar a outra  metade”. Estas palavras são atribuídas a Jay Gould (1836-1892), empresário norte-americano ligado às grandes ferrovias que por especular com ouro e ações foi considerado o grande responsável pela crise e pelo pânico que envolveu a Bolsa de Nova York em 24 de setembro de 1869. Apesar de ter sido proferida há mais de um século e do exagero contido, a frase ainda guarda algo de atualidade e pode ser entendida como a manifestação do profundo desprezo com que os detentores do capital tratam os empregados e, por outro lado, de como parte da classe trabalhadora se encontra presa por interesses imediatistas e pouco consciente sobre os seus reais interesses.

Transportando esta situação para a realidade das redações nos dias de hoje podemos imaginar os empresários da mídia se vangloriando de poderem contratar metade dos jornalistas para falar mal da outra metade. E a metade achincalhada é a parte que se organiza em sindicatos; enfrenta o individualismo que reina nas redações; promove a solidariedade de classe contra a competição feroz entre os profissionais; defende as leis trabalhistas e a organização profissional contra a desregulamentação do “mercado”; celebra acordos coletivos enquanto o patronato quer eliminar o contrato de trabalho; luta pela formação profissional específica pois não concorda que a empresa seja a autoridade máxima com poder de determinar quem pode ou não exercer o jornalismo, enfim, a parcela que procura se afirmar como classe trabalhadora com consciência autônoma, responsabilidade social e não porta-voz do poder econômico ou político.

Testemunhamos esta inversão de valores após a aprovação do PLC 079/04. Em setembro de 2004, o deputado federal Pastor Amarildo (PSC-TO) protocolou um projeto de Lei que atualiza e amplia as funções jornalísticas determinadas pelo Decreto Lei nº 972 de 1969. Segundo o projeto, as 11 funções jornalísticas seriam ampliadas para 23 e a exigência do diploma seria estendida para todas as funções. O que seria apenas a modernização de uma regra defasada, escrita há quase 40 anos, portanto, elaborada em uma época em que o jornalismo ainda era feito com a máquina de escrever e a maioria dos jornais era impresso a partir da matriz em linotipo, virou uma batalha ideológica.

O modo de fazer jornalismo foi alterado profundamente pela introdução das novas tecnologias. Nos anos de 1960 o computador só era conhecido pelos filmes de ficção científica e hoje é impossível trabalhar em uma redação sem recorrer à informática. Isto fez com que funções desaparecessem e outras fossem criadas, o Projeto de Lei visa exatamente corrigir esta defasagem. Nenhuma dessas considerações está sendo feita pelos detratores do projeto, pois se o propósito fosse o de corrigir eventuais falhas e alterar partes que possam causar algum tipo de problema, os sindicatos e a Federação estão abertas ao diálogo, mas, na verdade, o objetivo dos donos da mídia é o de impedir qualquer avanço na organização profissional dos jornalistas.

Para defender suas posições estreitas e particulares os patrões se vêem na necessidade de tentar desqualificar o debate e seus oponentes com adjetivos ofensivos. Os barões da mídia, ao instrumentalizar suas vozes para utilizar sofismas e distorcer conceitos como liberdade de pensamento, de imprensa e democracia, manipulam o significado das palavras segundo seus interesses. É necessário lembrar que a ação civil pública pela suspensão da obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão, que agora está em julgamento, foi patrocinada pelo Sindicato Patronal dos Proprietários de Rádio e TV.

O recurso à mistificação e desinformação foi utilizado pelos empresários já em 2004 para criticar a proposta de criação do Conselho Federal de Jornalistas (CFJ). O Conselho, órgão de regulação profissional que existe em dezenas de profissões (médicos, engenheiros, advogados, músicos, corretores de imóveis etc.), foi taxado como censura à liberdade profissional e de imprensa. Uma argumentação ofensiva, especialmente tratando-se de uma organização sindical e de uma categoria que sempre se destacou pela luta em defesa das liberdades gerais e, em especial, de imprensa. Agora, os barões da mídia continuam sua campanha difamatória com argumentos semelhantes. Mas, talvez por um ato falho, o editorial do jornal o Estado de S. Paulo, que pede o veto para nova lei aprovada, publicado em 11 de julho, deixa escapar no último parágrafo do texto o real motivo pelo qual as empresas se opõem ferozmente a qualquer forma de organização dos jornalistas; a de que a legislação “interfere na autonomia das empresas de comunicação”.

A maioria dos leitores e do público que acompanha o noticiário de rádio e TV não tem clareza de que as empresas jornalísticas são, acima de tudo, empresas. O cidadão trata a mídia como uma espécie de força isenta de contradições que, exatamente por estas características, cumpre o papel de apresentar a verdade sem preconceitos, livre de interesses particulares e se guiando exclusivamente pelo bem público para refletir e explicar a realidade. Esta certamente seria a Imprensa ideal, mas o problema é que os donos dos jornais não enxergam a notícia desta mesma forma. Para os empresários a imprensa é apenas mais um negócio entre os vários em que a mídia se divide, telecomunicação, internet, publicidade, marketing, transmissão de dados etc. e, para ganhar o máximo possível neste negócio, o melhor é trabalhar com uma categoria acuada e desmobilizada.

As empresas de comunicação estão jogando suas fichas na desregulamentação da profissão de jornalista e no isolamento das suas representações sindicais para poderem lucrar ainda mais. Para enfrentar esta situação é necessário que a sociedade tenha conhecimento do real motivo por trás das críticas publicadas nos meios de comunicação e, finalmente, é preciso a manifestação firme dos próprios jornalistas contra a manipulação que estão sendo vítimas.

*Guto Camargo é presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo

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