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04/11/2006
Guerra em Oaxaca: A morte do jornalista Brad Will
 

Por Luiz Hernández Navarro

O jornalista Brad Will era um exemplo do novo jornalismo independente nascido das lutas contra a OMC em Seattle, em 1999. Ao mesmo tempo sério, comprometido e alegre, foi morto a tiros nas ruas de Oaxaca, no México, em mais um crime da repressão contra o movimento popular.

O grande corpo delgado jaz sobre o asfalto frio, numa rua do município de Santa Lucía del Camino, em Oaxaca. No torso desnudo um fio de sangue mostra as feridas mortais, provocadas por duas balas de calibre nove milímetros. Presa ao punho está uma câmera de vídeo HD profissional. Seu nome é Brad Will e nasceu nos Estados Unidos. Tinha 36 anos de idade. Era jornalista da rede alternativa Indymedia.

Brad Will foi morto no dia 27 de outubro próximo passado. Gravava o ataque de pistoleiros, a serviço de Ulises Ruiz, contra as barricadas erguidas na colônia Calicanto. Um corregedor, o chefe de segurança da prefeitura e dois policiais disparavam contra os opositores ao governador do estado [Ulises Ruiz]. Também atiraram contra Brad, que documentava a agressão, sempre atrás de um grupo de jovens. Ele não se expôs, mas os pistoleiros o tinham na mira. Caiu, abatido pelas balas.

Doente, Will chegou ao México em outubro de 2006. Seu amigo, o jornalista Al Giordano, editor de /The Narco News Bulletin/, lhe recomendou que não fora. “Conhecendo” – escreveu Giordano – “o azar que Brad teve cobrindo outras histórias (a polícia o espancara em Nova Iorque e no Brasil enquanto fazia esse trabalho importante, mas perigoso), sua dificuldade com o espanhol, e o alto risco que cerca os jornalistas independentes (...) implorei que ele não fosse”. O jornalista não ligou.

Apesar dessas dificuldades Brad se integrou rapidamente ao trabalho informativo em Oaxaca. Decididamente não era um foca. Além de trabalhar no Indymedia, foi animador das rádios livres nos EUA, onde participou da emissora novaiorquina /Steal This Radio/, uma das mais proeminentes estações piratas em meados dos anos 90. Ativista da informação, onde houvesse mobilizações populares Brad ia para contar a história. Narrou e filmou assim ocupações de terra no noroeste dos Estados Unidos, lutas contra a privatização na Bolívia, protestos contra a globalização neo-liberal e também ocupações de terra no Brasil.

Seu trabalho jornalístico no sul do México foi impecável. Tanto assim que tornou-se incômodo para o poder. As imagens que gravou das agressões contra o movimento popular de Oaxaca captaram os rostos de pistoleiros e assassinos. Sua última crônica, “Morte em Oaxaca”, é um testemunho dramático do assassinato de Alejandro García Hernández, um ativista da Asssembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO), e a repressão do governador Ulises Ruiz contra os insubmissos.

Brad é um exemplo da nova geração de ativistas transnacionais da informação incubados e reproduzidos pela luta de Seattle contra a Organização Mundial do Comércio em 1999. São jornalistas que trabalham por fora dos grandes consórcios informativos, utilizando as ferramentas informáticas mais modernas, tais como o php, uma linguagem de programação que permite a publicação aberta e interativa através da Internet (veja-se a /Wikipédia/).

Indymedia, a rede mundial de centros independentes de mídia com que ele colaborava, é um exemplo emblemático desse tipo de compromisso político. Formada por coletivos locais nos cinco continentes, nasceu da colaboração de ativistas tecnológicos – hackers – e ativistas tradicionais da informação. A novidade de seu modelo é que foi pioneiro em reunir, tornar visíveis e facilitar a publicação da informação gerada por quem participa de protestos sociais, rompendo o cerco midiático dos grandes consórcios informativos.

Will viveu com grande simplicidade, num edifício abandonado, longe das comodidades materiais. Seu trabalho como jornalista era voluntário. A maior parte de sua renda servia para financiar sua atividade. Músico e compositor, fez-se também um trovador da nova épica altermundista.

Para seu companheiro Teo Ballve, “seu rosto parecia sempre feliz. Não consigo descreve-lo de outro modo. Lembro-me de seu entusiasmo. Lembro-me de seu compromisso”. Segundo sua amiga Jennifer Whitney, ele tinha “um enorme coração aberto, e absolutamente dedicado ao serviço das gentes em luta. Era uma dessas estranhas pessoas que parecem, pelo menos na superfície, ter encontrado uma espécie de equilíbrio entre a grande seriedade das lutas que cobria, e a alegria e a esperança necessárias para animá-las”.

No dia 17 de fevereiro de 2005, Brad escreveu, depois de uma selvagem repressão governamental contra uma ocupação de terra em Goiânia, no Brasil, a que deu ampla cobertura: “Não tenho palavras para exprimir o bem que a gente se sente por estar vivo”. Tragicamente, depois do que passou em Oaxaca, ele não pode mais afirmar isso.

No dia 29 de outubro, em plena ofensiva policial contra o movimento popular, em meio às bombas de gás lacrimogênio e aos gendarmes que espancavam cidadãos que resistiam à repressão com seus corpos, centenas de oaxaquenhos humildes visitaram seu féretro para render-lhe uma última homenagem. Mulheres chorando e rezando beijaram o ataúde para agradecer-lhe pelo seu compromisso e pela sua honestidade, e dar-lhe a despedida. A lembrança de Brad ficará viva na memória de uma das maiores revoltas da história do México contemporâneo.

Luiz Hernández Navarro, Editor de Opinião do jornal La Jornada, México.

(Envolverde/Agência Carta Maior)

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